Homem Que Sente

Alguns de vocês já me conhecem. Como escritor, como ator, como amigo. Mas é importante que todos saibam o porque estamos aqui.

Desde muito cedo fui sempre fascinado pelo universo e a mente humana. De onde viemos? Para onde vamos? Por que amamos? Sofremos? Morremos? Por que precisamos enfrentar muitas vezes a miséria sem entender os motivos? Sem sequer saber se existem motivos.

Mas toda essa curiosidade foi deixada de lado nos meus primeiros anos profissionais. Após me formar em Economia, trabalhei no mercado financeiro durante anos. Depois, a vida me mostrou toda a sua profundidade. Desde então, precisei escrever. Precisei a voltar a procurar respostas para todas aquelas perguntas que nunca desapareceram, mas estavam adormecidas.

Todos vocês já conhecem o Homem Que Sente. Desde o início do ano, surgiu o desejo de levar essas discussões para o universo físico. Para o mundo do toque. Do olhar. Das angústias visíveis. A Casa da Felicidade é o projeto embrionário desse desejo.

Mas por que falar de amor?

Schopenhauer responde com muita clareza: 

"Não é uma surpresa constatar que os filósofos desprezem uma parte importante de nossas vidas, deixando o amor como uma matéria prima não trabalhada. Mas o amor constantemente interrompe até o mais sério dos trabalhos e algumas vezes deixa perplexos, mesmo que por instantes, os cérebros mais geniais. Ocasionalmente exige o sacrifício de tudo: inclusive da felicidade."

Infelizmente, nós dedicamos muito tempo para evoluir nos mais variados aspectos da vida. Ainda assim, negligenciamos a evolução de vários dos aspectos afetivos do nosso cotidiano. Entre esses, tratamos com um descaso maior o amor. Tolices dos jovens imaturos, alguns diriam. Mas tolices que nunca deixaremos de sentir. 

Somos muito mais práticos e esperançosos nos desastres relacionados ao trabalho, mas lidamos com imensa dificuldade nos fins e nas intimidades amorosas. Afinal - viver anos e décadas ao lado é uma promessa que todos gostaríamos de experimentar e cumprir, mas está entre as tarefas e conquistas mais difíceis da humanidade. Temos infinitas soluções tecnológicas para o espaço e os átomos, ainda assim não sabemos: como ser feliz no amor?

Afinal, o que é o amor?

Uma das primeiras fórmulas para o amor que se possui conhecimento é a do inglês Havelock Ellis de 1890:

Amor = Amizade + Sexo. 

Por sorte, desde então, todos os campos que se dedicam ao estudo da natureza humana evoluíram, principalmente nas últimas três décadas (com o auxílio da tecnologia). Hoje, sabemos: o amor é o resultado de uma série de mecanismos hormonais e neurais inconscientes necessários para garantir a nossa sobrevivência e a imortalidade da espécie humana através da criação de gerações futuras. Para Schopenhauer, o amor é consequência da vontade de viver, o impulso inerente ao ser humano de permanecer vivo e reproduzir. 

Por que essa ilusão é necessária? Porque a solidão e a reprodução (não para a espécie, mas para o indivíduo) trazem sérios riscos à sobrevivência. O parto. A escassez de alimento. A incapacidade da cria de não se sustentar e sobreviver sozinha. O custo da paternidade é alto demais. Nós nunca concordaríamos em um estado de plena razão em nos multiplicarmos. A menos, é claro, que tivéssemos perdido o juízo. Algo que tão graciosamente chamamos de amor.

A Teoria do Cérebro Triúnico e o Amor. 

 Apesar de já não ser um conceito tão utilizado pela neurociência (por possuir algumas falhas em sua construção), a Teoria do Cérebro Triúnico possui um poder ilustrativo interessante para analisarmos as relações entre sobrevivência e amor. De acordo com essa teoria, o cérebro humano seria composto por três partes: reptiliano, límbico e neocórtex. A primeira parte é mecânica e instintiva. Alimentação. Respiração. Reação. A segunda, nos trouxe as emoções e afetividade. A terceira nos trouxe o raciocínio lógico e a razão. 

No campo das relações humanas, essas partes cerebrais nos trouxeram respectivamente os três aspectos mais relevantes da vida a dois: o sexo, o amor e o erotismo. A primeira, é naturalmente mecânica. A segunda, é naturalmente sentida. E a terceira é culturalmente construída para tentarmos conciliar sexo, amor e razão. 

Até agora, discutimos o indivíduo. Mas nenhum homem é uma ilha. 

Uma Breve História do Amor e seus Venenos.

Individualmente, o amor é algo inconsciente e com um objetivo único: garantir a sobrevivência da espécie. Mas somos seres conscientes, culturais e coletivos. Refletimos sobre o inconsciente e as nossas emoções assim como refletimos sobre todos os mistérios do universo e suas metafísicas. Colocamos as nossas angústias nas obras de arte e nos romances. Nas religiões e crenças. Como os séculos de história nos impactam até hoje e por que muitos desses movimentos podem até ser a causa do que nos torna infelizes? 

O Romantismo.

Em 1770, o poeta Thomas Chatterton se suicidou. O motivo? Ninguém queria ler as suas poesias sobre angústias amorosas e decepções. Em 1774, surge Os sofrimentos do jovem Werther de Goethe - com uma história bastante semelhante e com um viés extremamente carinhoso para os gestos do protagonista. Desde então, passando por diversos romances, contos e todas as futuras formas de mídia nos tornamos um pouco românticos. A ideia de alma gêmea. A ideia do eterno até o fim. A percepção de que casamento e amor são aspectos de nossa vida que deveriam ser encontrados sob uma única unidade.

Mas, até então, não éramos assim. Até então, era comum nas mais variadas sociedades a percepção de casamento como uma união estratégica. O amor em quase todos os casos não estaria no casamento, mas fora. É por isso que em muitos idiomas o termo utilizado para especificar uma relação extraconjugal possui a sua raiz nesse sentimento. Amante. Amant. Lover. 

Nos tornamos intoxicados e presos a referências e crenças do amor romântico. Passamos a idealizar a ideia de que o amor nasce para ser bom. Para ser puro. Nasce para ser perfeito e um caminho para a felicidade, mas nunca para a dor. Quando a última acontece, não a enxergamos com um efeito natural: a transformamos em um sofrimento sem tamanho (algo potencializado, além da química, pelas expectativas irrealistas que depositamos ao longo dos séculos ali).

O Romantismo surgiu como um confronto ao Iluminismo e suas modernidades. Mas nos esquecemos que nunca escaparíamos disso. 

Liberdade e pós modernidade. 

Como se não bastasse um único veneno, criamos outros. Buscamos as mais variadas liberdades sem nos lembramos que elas possuem um preço. A liberdade exige essencialmente maturidade. Queremos a primeira, mas não estamos dispostos às cicatrizes que nos trazem as segundas.

Com as liberdades econômicas e as revoluções tecnológicas, entramos na pós modernidade. Uma era de consumismo, não de construção. A era dos prazeres imediatos. A busca por produtos prontos para serem utilizados e descartados, quando se tornam ultrapassados. Quando se tornam obsoletos frente ao novo. Às experiências desconhecidas. Não criamos mais nada. Apenas subtraímos. 

Sem percebermos, transferimos essa mesma ânsia pelo agora para as relações humanas. As relações líquidas, como diria Zygmunt Bauman. Avaliamos os indivíduos como produtos e o seu potencial de benefício instantâneo. A sua contribuição para a novidade. O seu ineditismo. Colocamos as pessoas nas prateleiras através de aplicativos. 

Nós lutamos pela liberdade sexual e por suas facilidades. Agora, vivemos o seu vazio.

Nós utilizamos a tecnologia para entrarmos na era da conexão global. Mas, na verdade, nos tornamos apenas mais sozinhos. Descartáveis. Enquanto são necessários os dois lados para o nascimento de uma amizade virtual, um único lado pode desfazê-la sozinho. 

Isso nos leva para o veneno atual ... 

O Desapego.

Somando os outros dois venenos, criamos quase um composto explosivo. Um sonho coletivo de amor romântico e eterno, vivido por indivíduos com anseio pela liberdade e pelo novo. Todos dispostos a receberem amor, mas poucos querendo amar. Poucos querendo viver qualquer entrega afetiva e intimidade.

Sob a desculpa da razão, estamos buscando cenários de total certeza. Cenário onde usufruímos da vida, do sexo e do erotismo sem corrermos riscos. Sem precisarmos do amor. 

Nos sentimos como superiores e revolucionários aos venenos anteriores apresentados, mas no fundo somos apenas consequências do mesmo. Pregamos o desapego como sendo amor próprio, mas não entendemos que o amor próprio só existe através do amadurecimento das relações humanas. Nos consideramos inovadores, sem sabermos que há séculos grandes filósofos já abominavam essa tolice.

Destruir as paixões e os desejos apenas para evitar-lhes a estupidez e o sofrimento me parece uma forma mais aguda de estupidez. Foi-se o tempo em que ficávamos maravilhados quando um dentista arrancava o dente para fazer cessar a dor., já dizia Nietzsche. 

Mas como ser feliz então?

Aceitando a tristeza. Aceitando que o amor não nasceu para ser bom ou nos aproximar dos deuses. Na verdade, ele nos coloca mais próximos dos primatas do que do divino. Um pessimismo entusiasta. Um realismo otimista. Com o próprio Schopenhauer citou:

"No decorrer de sua vida e dos infortúnios que ela traz, cada um deixará de voltar-se exclusivamente para a sua própria sina e passará a enxergar a sina da humanidade como um todo. Passará a conduzir-se mais como aquele que adquiriu sabedoria do que como aquele que sofreu."

Lembretes conclusivos.

- Vivemos uma era de excessivas liberdades. Saber controlar o impulso por certas experiências e conservar o erotismo é essencial para sustentar a dicotomia amor e casamento, uma combinação recente e potencialmente destrutiva.

- O infortúnio é inevitável nas relações amorosas. Mas, sem essas, o infortúnio e o vazio são maiores ainda. 

- Não somos detestáveis ou errantes. As escolhas dos indivíduos são inconscientes e reflexos do coletivo. Não devemos nos odiar por isso.

- Não amamos sozinhos. Então, o amor precisa da razão. Mas não como uma desculpa para o desapego, mas como um instrumento.

- Acredite no amor. A outra opção não é tão bonita assim.