Ana. Helena. 

Tantas em uma única. Em duas. Em três. Em quantas vidas o universo me permitir ter. 

Essa carta ainda não deveria ter sido escrita. Ela já nasce toda errada. Nasce toda errada em seu momento. Em sua forma. Como sempre, em meu conteúdo. Queria tê-la escrito talvez na máquina, para que a elegância das letras borradas e o cheiro do papel disfarçassem a tola simplicidade com que escrevo. O meu depósito de clichês.

Mas não somente a carta é toda errada. A alma pela qual ela transborda é também nascida de todos os erros do mundo. Criada não pela adição de moralidade, mas pela sua eterna subtração. Uma alma perdida tentando encontrar no papel um pequeno sinal de esperança. De luz. De salvação. 

Uma tola tentativa, mas talvez não tão tola assim. Não tão tola desde o momento em que nos encontrei nos negros olhos capazes de me devorar como a escuridão da noite. Sem esperanças de escapatória para os vagabundos que por ela habitam. Sem esperanças de escapatória, mas com infinitas sombras de salvação.

Talvez eu nunca te envie essa carta. Talvez eu apague essa página como se a rasgasse e atirasse pela sacada do meu claustrofóbico peito. Rabiscasse os nomes e este tolo pseudônimo para nunca sermos reconhecidos. Para nunca traçarem essas tolices até os meus lábios. Mas são tantas Anas e tantos tolos vagando por esse mundo que não creio correr qualquer risco.

Exceto o risco de me estrangular com as linhas que nunca escrevi. 

Esperando a Carta do Momento Certo. Um momento que não existe.

E, no fundo (ou no raso), eu sempre fui todo errado.

M.

P.S. #1: obrigado pela quiche.