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A tecnologia não matou o amor. Desculpem-me. Mas vocês mataram. 

Hoje, completo quase dez dias pelo Caminho de Santiago. Nesta manhã, após caminhar alguns quilômetros, parei para um café em uma pequena cidade espanhola, onde havia uma rede sem fio disponível. Sem culpa, me conectei. Já estava há horas sozinho. E já havia conversado com outros peregrinos. Um pouco de reencontro com o meu mundo não me faria mal. Muito pelo contrário. 

Começou com o meu pai. Este ano completará 65 primaveras e quase não usa o seu celular. Mesmo assim, caçou alguns botões e me desejou apenas a seguinte mensagem: seja feliz, eu te amo. Ponto. Não há o que comentar. 

Depois, uma mensagem de uma leitora. Com todas as suas angústias. Uma desconhecida, do outro lado do mundo, dedicando longos minutos para escrever todo o seu desabafo. Um dos e-mails mais sinceros que já recebi. E prometo. Vou dedicar o mesmo carinho para respondê-la. Ela poderia até ter feito este mesmo desabafo por outros meios. Em outros tempos. Mas não teria sido tão fácil. 

Por último, pude ler a crônica de um médico oncologista no New York Times. "O Dia Em Que Comecei A Mentir Para A Minha Esposa", sobre a descoberta de um câncer terminal em alguém que se ama. Ainda na segunda página, entre tantos outros peregrinos, chorei como há muito tempo não chorava. 

A tecnologia é apenas um instrumento. Os infinitos artigos e papos de boteco que a colocam como vilã dos tempos modernos fecham os olhos sobre os verdadeiros culpados. Aqueles que, no final do dia, ainda apertam os botões. 

Sejamos honestos. É este homem quem escolhe buscar ou não uma rede disponível para se conectar. Ainda mais importante, é o uso que vou fazer dela. Em um bar, eu decido se apenas anoto o telefone de uma garota na minha agenda ou se passo horas vendo outros bares através de redes sociais. 

Aplicativos e todos os outros mecanismos tecnológicos deveriam ser vistos apenas como acréscimos. Não como necessários. Afinal, você provavelmente não vai conhecer alguém tão bacana enquanto mexe no celular. Já escrevi este texto. E caso conheça, em um certo momento precisará soltar o telefone sobre para tocar outros botões.