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Eu realmente a amei muito. Tanto, que não me lembro. 

Estes dias me perguntaram: ela nunca inspirou seus textos? Na hora, assustei. Entre tantas palavras já escritas, havia me esquecido de uma das mulheres que mais amei. Aliás, arrisco a dizer que o motivo tenha sido amar demais. 

Na verdade, quando me lembro que a esqueci, continuo impressionado. O passado possui um papel importante na vida de um escritor. Enquanto o presente traz apenas um dia por vez, o passado é uma fonte única de inspirações. Assim, para várias de minhas histórias, relembro de todos os amores, erros e tristezas que já vivi. Uso todos os detalhes das mulheres que já conheci para preencher estas memórias. Bem, quase todos. Porque ela nunca surgiu. Nem ao menos uma vez. Nem apenas para me lembrar do quanto sofri. Se você já passou por algo parecido, sei que me entende. Aos afortunados livres destes desamores, acreditem em mim. 

Não há dúvidas: ela foi, com certeza, uma das mulheres que mais amei. Mas também aquela por quem mais sofri. Os poucos que me conhecem, vão dizer.  - Você ainda era muito novo. Discordo. Já escrevi sobre estas acusações. O amor independe da idade para ser autêntico. Maduros ou não, nossas reações são sempre valiosas. 

Com ela era assim. Mas por existir tanto amar e sofrer em uma única pessoa, segui o único caminho possível. O esquecimento. Mas um esquecimento que não poderia ser superficial. Ele precisaria da mesma intensidade de todos os outros sentimentos que ela gerava em mim. 

Acredito que de todas as tristezas que ela me trouxe, o esquecer se destacou. Se não fosse por aquela pergunta, ela não seria lembrada. Porque até mesmo nas mais profundas das minhas buscas, ela nunca apareceu. Nos nossos dias, eu teria feito de tudo para que ela não me esquecesse. Eu teria feito de tudo também para que ela fosse minha única inspiração. Mas ela pouco fez. 

Assim, ela escolheu. Um amor em esquecimento.