Carta para uma moça ausente.

Não sei o que dizer sobre nós dois. Logo eu, homem de tantos dizeres. Nós nunca tivemos nada além de uma simples conversa. Aliás, não sei sequer se posso chamar aquele instante de conversa. Existe um conversar sem voz? Sem olhares? Sem conhecer cada um dos teus jeitos? Não sei. Ainda assim, conversamos. Discutimos os filmes do futuro. Os romances de passados sombrios. Os meus olhos. Eles raramente são elogiados. Nós combinamos cafés. Pizzas. Luzinhas. Desenhamos possibilidades e encontros futuros. Até mesmo fizemos as nossas primeiras promessas. Prometemos ler livros sobre promessas não cumpridas. Sobre desaparecimentos e reencontros. Eu já o li na manhã seguinte. Em poucas horas. Não esperei um só dia antes de entrar nos seus gostos. De conhecer a sua mente. Nas fotos, eu paquerei os seus olhos. O seu corpo. Cada um dos gestos e atos do seu imenso coração. Não nego: eu senti até mesmo um estranho medo diante dos comentários alheios. Um leve ciúme, há tempos não sentido, capaz até mesmo de me alegrar. Já era hora de eu me interessar novamente por alguém. De sonhar outros sonhos. Eu lembrei com carinho da suas delicadas palavras: eu te escolhi, cuide bem disso. Naquelas breves mensagens, cuidei. Nos dias seguintes também. Mergulhei por inteiro nesta sua escolha. Mas já não encontrei mais nada além do silêncio. Do vazio. Tenho tanto para te dizer. Para te contar sobre os meus e os nossos dias. Ainda assim, não sei o que dizer sobre nós dois. Só sei o quanto eu te queria aqui.